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| 15/10/2004 |
Admitir estar apaixonado é mostrar-se nu. Todos os que vêem uma pessoa apaixonada, ver-la-á inteira. Me faz lembrar aquela canção de Rodrigo Amarante: "e até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei". Denuncia-se quem assume a paixão.
Assumir-se primeiro para si mesmo. Sem essa de procurar motivo para não se apaixonar. Uma amiga minha diz "abôxonei!" e é isso: você fica abobalhado, esquece-se de tudo, ausenta-se da vida com os outros: "depois de você, os outros são os outros e só". Este estado marca uma diferença no aboxonado, ele não passa mais incólume. Só resta acontecer o mesmo com o felizardo(a). Sim, porque bonita é a paixão correspondida, que vira amor; amar deve ser a finalidade de nossa vida.
Eu estou passando pelo torpor de uma paixão de maneira muito madura, ao menos para a minha personalidade. Estou conseguindo manter o objetivo, semear as probabilidades. Principalmente, tenho considerado que posso estar errado acerca do seu interesse por mim, de forma que tudo pode ruir... Como toda casa, toda parede. O grande aprendizado que esta experiência me traz é o do método para me fazer melhor. O meu papel e o lugar do outro, neste caso, a pessoa por quem estou todo abôxonado. Estou me sentindo cada dia mais leve, mesmo que tudo rua. Descobri que, na verdade, eu estou abôxonado por mim também.
Hora de dormir, aliás, já passou. A vida já voltou ao normal depois do feriado de paixão. Amanhã, eu trampo, afinal eu amo o meu trabalho. Só que por ele eu não posso ficar nu. Sendo assim, vistamo-nos todos, ao menos quando estivermos em público.
Escrito por Murilo às 01h07
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| 12/10/2004 |
Apaixonado
Alegria em ver-te outra vez sinto que não poderia aguentar um dia mais sem tuas pernas a mostrar-me a casa do teu sabor
Mas eu não tenho satisfação de longe te vejo e a espera ainda arde será que tu surgirás mais tarde por entre as cortinas de meu quarto?
Sou o coração que explode os gemidos ouvidos, a saliva o suor, o mel, a alfazema a mão a cobrir-te o rosto
Tu sentes minha cantoria aderir-se à tua pele morena tocar-te as costas, desejo fazer-te bem, assegurar-te
Não demora, que meus dias são tristes tu sabes o quanto em mim te guardo adormece nas cortinas do meu quarto o suave apelo de minha saudade.
Escrito por Murilo às 20h47
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| 11/10/2004 |
Paixão
A paíxão é um estado de ausência. Desejo e dúvida, esperança e apreensão. Ansiedade e medo, suadade e delírio. Todas as portas abertas e toda a água jorra para dentro. Sentir-se externo ao universo, navegar nas costas de uma arraia, adormecer num abismo marinho, corresponder ao chamado da água viva.
A paixão é a letargia, o descanso do cérebro, o torpor no coração. A luta bendita, o artesanato da alma. O transformar-se, sem ter onde chegar. É o sentir-se enorme, ao tempo em que cai sobre o apaixonado a carcaça da vida passada. O desejo incontido de estar outra vez, todos os momentos, sentindo a avidez da pulsação firme do coração sob mil tonéis de dinamite brilhante. Sussurrar palavras doces, perder-se nos caminhos do prazer e da vontade, que se entrecruzam, criando nova estrada. É passar pela vida cheio de gana e crença de que sairei desta ainda mais vivo, ainda mais cheio de sangue e glória por ser eu mesmo.
Porque a paixão é a confirmação da grande existência. A paixão nos encaminha ao amor quente e iluminado, sem paixão não se pode falar em nada mais. Esclareço que estou bem por causa dela, a paixão. Este estado de suspensão total aflige-me, porém me mostra a vida inerente ao meu ser taurino, aguçado, terreno. Todos os medos rodeiam-me e se tranformam em desejo na hora em que vejo... Sinto-me idealmente apaixonado agora.
Sou para mim o oposto de mim. Sou o espelho procurando foco. A fúria de minha alma tranformada em música. Toda a dor some e agora estou aqui, abrindo-me para esta conquista. Toda a paciência é pouca, todo infortúnio uma bénção. A maior parte do tempo, navego águas profundas. No meu casulo, sinto desabrochar o sentido de estar outra vez aqui. Amar, para sempre, amar. A paixão, esta grande água, me suspende e me ensina a querer a maravilha, a superar os pequenos anseios de uma vida idiota. A paixão me quer inteiro e a ela me dou. Neste instante, sozinho, vejo estrelas borbulharem à minha volta. O céu é aqui e minha cabeça arde à espera...
Escrito por Murilo às 15h21
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| 10/10/2004 |
Musica Batida da semana
É de Morrissey a MAMB da semana: Glamours Glue, do excelente (seu melhor álbum solo, sem dúvida) Your Arsenal. Este disco, lançado em 1992, é um marco na consciência que o povo inglês faz de si mesmo, de sua história e de sua contemporaneidade. Áspero, ele descarta a possibilidade de uma Inglaterra livre pela via neo-liberal, re-afirmando as crenças de MOZ, expressas desde o The Smiths.
Musicalmente irrepreensível; um verdadeiro disco de rock'n'roll, à altura dos melhores dos Smiths. Foi produzido por Mick Ronson, grande guitarrista que morreu pouco depois de lançado Your Arsenal. Morrissey, então, passa a transitar por estúdios com outros produtores, porém ainda não encontrou algum que tão maravilhosamente o ajude a expressar sua fúria irônica contra as instituições do Império.
A segunda parte do Arsenal traz o desejo reprimido ("I am a poor freezingly cold soul..."), o ciúme ("We hate it when our friends become successful") e a indiferença contra o burguês médio ("they'd sacrifice all of their principles for anything cashable / I do believe it's terrible"). Um clássico do rock contemporâneo, poético, livre e cortante.

Escrito por Murilo às 22h42
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Fé
Eu sempre fui um homem religioso e agora estou por aí, tateando Deus. Sinto-me intimamente ligado às coisas benéficas do mundo. Sou um crente, no final das contas.
Porém, ainda me faz falta o rito. Não me vejo protestante, tampouco quero retornar ao catolicismo. O candomblé não me tocou fundo e o espiritismo me traz a impressão de um Cristo consolador, enquanto para mim Cristo é um agitador, um inquieto! A Igreja Messiânica, com seu Johrei me faz lembrar certa inocência perdida, a qual não consigo mais reaver... Medito, pratiquei Yoga e, por incrível que pareça, achei mesmo que havia me encontrado. Deixei a prática pelo trabalho, que de tantas coisas me priva diariamente.
Faz-me bem ver as pessoas extasiadas num ritual religioso. Torna-me melhor estar num páís em que o sincretismo e a crendice popular são bases para movimentos sociais transformadores e ímpares, em todo o mundo, assumindo caráter verdadeiramente religioso. Nossos santos são mais santos, porque em suas imagens vejo refletidos eu, você, o negro, o índio, minha mãe e meu amor. Desejaria estar no Sírio de Nazaré, em Belém. Nesses corpos de homens simples, dispostos às mudanças em suas vidas e no Planeta, vejo Jesus Cristo. Enterneço-me e com eles amadurece a minha Fé.

Escrito por Murilo às 22h19
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