Tateie pelo Livro de Bolso

12/11/2004

Minha personalidade obcessiva

Dizem que os taurinos são possessivos e agem obcessivamente quando estão amando, ou apixonados. Eu sou assim. Mudo caminhos, a curiosidade me corrói a todo momento, o desejo de saber, de ter, de sentir... Isso tem me machucado um pouco, principalmente por perceber que este comportamento me distancia de outras possibilidades, talvez até mais possíveis do que a que estou vivendo. Junto com a paixão, um sentimento de lealdade, de que não posso perder, como se já tivesse algo. São contradições que me atordoam e me atrasam a vida. Preciso muito de beijos e queijos de manhã, ou talvez este vazio seja fruto de minha dificuldade em manter o equilíbrio diante do estar sozinho, sem amor. Sem amor?! Então, o que é isso que eu estou sentindo?
Escrito por Murilo às 17h38
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10/11/2004

Visões

Acabo de chegar de uma sessão de yoga e quero dizer que gosto demais da prática. Durante a meditação final, veio-me uma verdade: enquanto sentimos as responsabilidades que nos impomos ou a nós são impostas (tanto faz), vamos deixando de viver conforme nossa própria vontade. O mundo nos enche de obrigações e nós nada devemos ao mundo. mas ele nos deve.

Depois disso, a conclusão existencial versus a verdade metafísica: estamos fadados a ser o que não nos é natural? O mundo trai a todo momento a natureza que o governa. A burrice vai acabar com o humano. Certamente, ficarão as amebas.


Escrito por Murilo às 22h12
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08/11/2004

O poeta _ com primeira revisão

trabalhar porque gosta
a aventura do poeta
realizar-se para o povo
e o povo mente? o poeta não

a gente trabalha porque sente?
o que você faria pelo outro?
e por você mesmo ou mesma?
escalaria a montanha com os seus?

o que realmente aconteceu?
quantos em perfeita e sã memória
diriam a mais pura verdade
se de todos basta um ser o covarde?

somos todos maria vai com as outras
usamos nosssa inteligência para o mal
às vezes, somos tão inocentes quanto 
um bravo bandeirante na mata não o foi

o ouro a orquídea escondem a caatinga
das mentes que outrora ouviram histórias
e que agora tremem ao falar de si, previnem-se
não é absoluto o ataque, é calmo

a gente é gente, às vezes mais
se bem que o bicho nunca se satisfaz
com a obediência - se vê o horror
da coleira da bride do chicote da espora

todo despertar tem sua hora
às vezes se quebra o carro de boi
porque antes de matar e comer
precisamos maltratar o bicho?

eu e eu somos, tu e tu sois, ele ou ela é
acento circunflexo no t
sempre atento ao s
sobrevive o poeta de todos nós

teatro diversão atração
mecanização fetichização masturbação 
desresponsabilização inação
cumpra-se o veredito baseado na lei

fabrica-se o costume
veste-se a pele do outro
compõe-se de exageros 
nos mínimos detalhes

o poeta não faz ginástica,
ele dança com toda lucidez samba
o poeta não sabe o que diz
há os que dizem por ele

trabalhar porque gosta
a bandeira do poeta
realizar-se para o povo
e o povo mente? o poeta não.


Escrito por Murilo às 22h55
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Coluna Prestes

Flagrante do encontro das colunas revolucionárias paulista e gaúcha, 1925. Foz do Iguaçú (PR). (CPDOC/ Ila foto 003/2)


Escrito por Murilo às 22h31
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07/11/2004

o símbolo em todas as coisas _ 3º dia em Rio de Contas

Peguei-me reparando um pequeno acontecimento que eu provoquei no mundo - no caso, o cadáver de uma barata que eu havia matado jogado sob um pé de romã. Importa-me o lugar das coisas que eu movimento, e o meu lugar nestes atos tão pequenos e particulares. Isso é normal, para os dias em que vivemos: cercados das maravilhas que criamos e das maravilhas ambientais que destruímos. Resta-nos a culpa e o subterfúgio nos símbolos em tudo o que pensamos, falamos e fazemos.

Vários significados possíveis são levados em conta pelas pessoas ao fazerem algo. Percebo, no entanto, que entre as mulheres este hábito não é tão cultivado quanto entre os homens. Elas também dotam de simbologia os seus atos, porém o fazem de forma livre e direta: as mulheres admiravelmente não têm o que esconder. Os homens, por terem sido educados a viverem sob padrões de comportamento muito restritos, especialmente no tocante ao exercício de sua sexualidade, precisam da apologia. E são inábeis ao fazê-lo, são tolos. Quero dizer, somos tolos, afinal sou um deles. Pobres de nós.

Lembra-me a linda música Submarine, do novo disco de Bjork, Médulla, em que um coro masculino anuncia o surgimento, ou ressurgimento, do universo (quero apreciar o poema assim, com este exagero) a partir do mar, oceania, fêmea. Somos assim como este coro, anunciamos e guardamos o saber sobre o nada. Somo tão livres quanto elas, mantemo-nos idiotas, medrosos e culpados por sermos homens, uma vez que quase nunca correspondemos à rigidez dos padrões culturais. Ou mudamos a cultura, ou as relações entre as pessoas se tornará inviável em pouco tempo.

 
Comunidade da Barra, em Rio de Contas, onde passei o dia.


Escrito por Murilo às 20h42
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Para ler pausadamente

Três cuecas no pé de romã

quão romântica simpatia

a noite faz lembrar o dia

a planta a ti me leva de volta

 

o sol amava estar ali

entre o pé de coco licuri

a pocilga o leito do rio

eu e a máquina fotográfica

 

no lugar antes do lugar em que homens

tomavam o seu banho vespertino

com sabonetes e cigarros disputados

mais acima, bois descansavam

 

quem foi João Vaz?

por que Marculino Moura não tem prefeitura?

quem mijou primeiro no rio das contas?

que fiz eu com as mangas que me deram

os parentes de Neidinha?

ainda tem ouro aqui e as montanhas?

 

no sertão da Chapada Diamantina

Rio de Contas ri e muito me diz

Barão de Macaúbas feliz

Três cuecas no pé de romã.

 

06/11/2004.


Escrito por Murilo às 20h34
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